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Rita da Costa Consultoria de Seguros

Blog

Segurar por menos sai caro: a cláusula de rateio

Depósito com caixas e mercadorias empilhadas do chão ao teto

Existe uma conta que quase todo empresário já fez: "meu galpão tem um milhão em estoque, mas nunca vou perder tudo de uma vez, então seguro por quinhentos mil e pago metade do prêmio". A lógica parece impecável. Ela custa caro exatamente no prejuízo pequeno, que é o que acontece na maioria das vezes.

O nome disso é cláusula de rateio, ou regra proporcional. Está em praticamente toda apólice patrimonial, e é a origem da frase mais repetida depois de um sinistro: "mas eu tinha seguro".

Como funciona

A seguradora cobra o prêmio com base no valor que você declarou em risco. Se, na hora do sinistro, ficar demonstrado que o valor em risco era maior do que o declarado, a indenização é reduzida na mesma proporção da diferença.

Em números, com um exemplo:

  • Valor real em risco: R$ 1.000.000
  • Valor segurado na apólice: R$ 500.000
  • Prejuízo do sinistro: R$ 200.000

A intuição diz que o prejuízo cabe folgado dentro dos quinhentos mil, então seria pago inteiro. Não é o que acontece. Como o segurado cobriu metade do que tinha, a seguradora indeniza metade do prejuízo: R$ 100.000. Os outros cem mil ficam com a empresa.

Note que a apólice funcionou exatamente como foi contratada. Ninguém negou nada, não houve má-fé, não houve letra miúda escondida. Houve proporção.

Por que acontece com empresa organizada

Raramente é economia deliberada. Na prática, as causas costumam ser três:

O valor foi declarado uma vez e nunca mais. A empresa cresceu, o estoque dobrou, comprou máquina nova, reformou o prédio — e a apólice segue com o número da primeira renovação, cinco anos atrás.

A base de cálculo estava errada. Declarar o valor contábil de um equipamento, já depreciado, quando a apólice indeniza pelo custo de reposição. São dois números bem diferentes, e o segundo é o que importa para reconstruir.

O pico não foi considerado. Comércio que triplica o estoque em novembro não tem o mesmo valor em risco em novembro e em fevereiro. Segurar pela média deixa a empresa descoberta justamente no mês em que ela tem mais a perder.

O que fazer a respeito

  1. Levante o valor em risco de verdade, por item. Prédio, instalações,
  2. máquinas, estoque, mercadoria de terceiros em seu poder. Sem estimativa de memória.

  3. Use a base que a apólice usa. Se ela indeniza a novo, o valor declarado
  4. precisa ser o de reposição a novo — não o que está no balanço.

  5. Trate o pico. Existem soluções específicas para sazonalidade; a pior
  6. delas é fingir que não existe.

  7. Revise a cada renovação. É o momento em que o número pode ser corrigido
  8. sem custo de endosso.

  9. Verifique se a apólice tem cláusula de leniência. Algumas apólices
  10. toleram uma margem de diferença antes de aplicar a proporção. Saber se a sua tem, e de quanto é, muda a conversa.

O ponto que interessa

Subseguro não aparece na cotação. Duas propostas podem ter o mesmo texto, as mesmas coberturas e preços diferentes simplesmente porque uma delas parte de um valor em risco menor — e a mais barata vai parecer a melhor até o dia do sinistro.

É por isso que eu começo pelo levantamento e não pela cotação. Dimensionar errado para baixo não é economia: é transferir para a empresa uma parte do risco que ela achava ter transferido para a seguradora.

Este texto é orientação geral e não substitui as condições gerais da sua apólice, que são o documento que vale. A forma de aplicar a proporção varia de contrato para contrato — se tiver dúvida sobre como a sua trata o assunto, vale perguntar antes de precisar.