O que fazer nas primeiras horas de um sinistro

Uma apólice é escrita meses antes de servir para alguma coisa. O dia em que ela importa é outro: aquele em que a empresa acorda com o galpão alagado, com a porta arrombada ou com o quadro elétrico queimado. É nesse dia que aparece a diferença entre ter seguro e estar protegido — e boa parte dessa diferença se decide nas primeiras horas, antes de qualquer perito aparecer.
Este é o roteiro que eu passo para as empresas que atendo.
1. Cuide das pessoas e contenha o dano
Antes de qualquer preocupação com a apólice: ninguém ferido, ninguém dentro da área de risco, e o que puder ser contido, contido. Fechar registro de água, desligar energia, isolar a área. A maioria das apólices espera que o segurado tome as medidas ao seu alcance para não agravar o prejuízo — e não tomar nenhuma pode virar discussão depois.
Conter o dano não é o mesmo que consertar. É a diferença entre desligar o disjuntor e trocar o quadro inteiro antes de alguém ver como ele ficou.
2. Avise antes de resolver
Comunique o sinistro assim que a situação estiver sob controle. Não espere levantar orçamento, não espere fechar a conta do prejuízo, não espere entender se "vale a pena acionar". Quem decide se o caso tem cobertura é a análise da seguradora, e ela começa pela comunicação.
Avisar cedo também protege a empresa de um detalhe que costuma passar despercebido: apólice tem prazo para comunicação, e prazo perdido é discussão que não precisava existir.
3. Não jogue nada fora
Esta é a que mais custa caro. Mercadoria queimada, equipamento molhado, estrutura retorcida — tudo isso é prova. A vontade de limpar o estrago e retomar a operação é legítima e compreensível, e é exatamente por isso que o erro é comum.
Antes de descartar qualquer coisa, registre. Se a operação não puder esperar pela perícia, fotografe tudo, separe o que foi retirado e guarde em algum canto. Material descartado sem registro é prejuízo que a empresa teve e não consegue provar que teve.
4. Fotografe mais do que parece necessário
Foto ampla mostrando o conjunto, foto fechada em cada item, foto do número de série, foto do medidor, foto da fechadura arrombada. Vídeo andando pelo local, narrando o que se vê. Nada disso custa nada e tudo isso some depois que a limpeza começa.
Inclua também o que não foi atingido. Delimitar a área do dano ajuda tanto quanto documentá-la.
5. Registre a ocorrência quando o caso pedir
Roubo, furto, incêndio, vandalismo e dano causado por terceiro costumam exigir boletim de ocorrência. Faça no mesmo dia, com a descrição mais fiel que conseguir — inclusive dos itens e valores, se já souber. Boletim genérico lavrado uma semana depois tem peso menor do que o registro feito na hora.
6. Junte o que você já tinha antes
A análise vai pedir documentos que existem desde antes do sinistro: notas fiscais dos bens, contrato de locação, laudo do AVCB, relatório de manutenção do que queimou, controle de estoque. Empresa que mantém isso organizado atravessa a análise em semanas; empresa que vai atrás na hora costuma atravessar em meses.
Se você nunca separou esses documentos, o melhor dia para fazer isso é um dia em que nada aconteceu.
7. Registre tudo por escrito
Toda conversa com a seguradora, com o regulador e com o perito: por escrito, ou por escrito depois. Um e-mail curto confirmando o que foi combinado no telefone resolve quase todo desencontro futuro.
O que muda quando existe alguém do seu lado
Nada nesse roteiro exige conhecimento técnico. O que exige é alguém acompanhando enquanto a empresa está ocupada em voltar a operar — porque é isso que a empresa precisa estar fazendo, e não conferindo prazo de apólice.
É o que eu entendo por consultoria: a apólice bem dimensionada é metade do trabalho, e a outra metade aparece justamente no dia em que ninguém queria precisar dela.
Este texto é orientação geral e não substitui as condições gerais da sua apólice, que são o documento que vale. Coberturas, prazos e exigências variam de contrato para contrato — se tiver dúvida sobre o que a sua cobre, é melhor perguntar antes do que descobrir depois.